Reciclázaro no Dia de Ação Mobilizadora, em Stuttgart e Munique
O Fórum Social Mundial adotou em sua 7ª edição um formato diferente, com uma agenda de eventos simultâneos em cidades que se comunicavam em tempo real, por vídeo-conferência e internet. São Paulo e Stuttgart, na Alemanha, estiveram interligadas como "cidades-irmãs".
Não apenas abriam links em suas respectivas programações, para que uma e outra acompanhasse o que estava acontecendo, como também se visitaram mutuamente. Stuttgart sediou vários encontros interessados em discutir as implicações ambientais na sociedade contemporânea - fato que levou à Alemanha uma equipe da Associação Reciclázaro, formada pelo presidente da ong, Pe. José Carlos Spínola, pelo coordenador de educação ambiental, Marcos Moreira Vaz, e Marina Gorini Esmeraldo, educadora ambiental.
Spínola também representou a Comissão Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo, órgão que articulou as organizações sociais na realização do Dia de Mobilização e Ação Global do Fórum Social Mundial na capital paulista. A iniciativa recebeu o nome de Sábado-Feira. Foi realizado nas dependências do Colégio São Luiz, na Avenida Paulista, dia 26 de janeiro. A proposta trouxe para a mesa de debates lideranças e militantes de movimentos sociais e entidades atuantes em áreas como educação, moradia, saúde, trabalho e inclusão social, entre outras.
Na primeira manhã, após a chegada da equipe da Reciclázaro em Stuttgart, podia-se reparar à porta das casas, diversos sacos plásticos amarelos. Em todos eles, estavam estampados orientações e os símbolos de materiais recicláveis. O sistema de coleta seletiva na cidade é rigoroso e bem organizado. Todas as casas recebem um calendário anual (Abfallkalender), com o que devem (e podem) descartar a cada dia do ano. No caso do papel e do plástico, não há restrição, mas para outros tipos de material o descarte é limitado.
Junto com o calendário anual da coleta de lixo, o morador recebe 4 tíquetes. Três para eletrodomésticos, móveis e até bicicletas, e outro para a retirada de podas de árvore, plantas e terra. A prefeitura anuncia nos jornais os locais, o dia e a hora da retirada, o que ocorre a cada 3 vezes ao ano. Nesta hipótese, cada casa pode descartar até 3m2. Caso esse limite seja excedido, há uma multa de 50 euros.
Agora, se as opções anteriores não forem suficientes, o morador pode se dirigir até a central de recebimento de resíduos sólidos urbanos da cidade (Wertstoffhot), onde deve pagar por cada material que for descartado, com exceção dos eletrodomésticos, que são recuperados.
A convite do Prof. Dr. Roland Weber, da Universidade de Stuttgart, a equipe da Associação Reciclázaro apresentou o trabalho da ong a um grupo de estudantes do Programa de Mestrado Profissional, do Instituto de Engenharia Sanitária, Qualidade da Água e Gerenciamento de Resíduos Sólidos (ISWA).
O grupo ouviu sobre a realidade de exclusão social brasileira em torno da catação desarticulada de lixo, do trabalho em condições subhumanas de famílas em lixões e da ausência de políticas públicas na área ambiental em nosso país.
"Não dá para entender como um país com tantas riquezas não investe em ações eficazes para preservação de seus recursos naturais", observou um dos alunos.
O ISWA é referência na Alemanha em sua área de atuação. Sua moderna construção otimiza a captação da luz do dia, por meio de grandes janelas de vidro em todas as salas de seus prédios. Além disso, utiliza-se de energia solar e térmica (proveniente dos biodigestores que tratam todo o esgoto produzido).
"Trabalhamos com o foco na aplicação científica orientada, que é unir o que há de melhor em tecnologia e conhecimento e aplicar os conceitos trabalhados em sala de aula, na própria universidade", explica o Prof. Dr. Martin Kranert, diretor do ISWA.
De fato, a experiência compartilhada no Instituto nos faz perceber que existem tecnologias para solucionar graves problemas em nosso país, como saneamento básico e a crescente quantidade de lixo produzida nas capitais brasileiras.
O ISWA mantém um programa de intercâmbio com a Universidade Federal do Paraná, na área de Meio Ambiente Urbano e Industrial. Em 2009, o instituto alemão promoverá um grande encontro sobre o tema em Curitiba (PR) e já convidou a Associação Reciclázaro a participar.
A central de recebimento de resíduos sólidos urbanos da cidade de Stuttgart (Wertstoffhot), inaugurada em 1939, possui hoje uma complexa logística e infra-estrutura. Quem nos explicou todo o processo foi o simpático Joaquim Silva, português, pai de 2 meninas e que mora na Alemanha há 19 anos.
"Desde o ano 2000, a cidade de Stuttgart implantou um novo sistema de gerenciamento de resíduos e deixou de depositar em seu aterro sanitário praticamente as 1.000 toneladas de lixo que são produzidas diariamente por seus 800.000 habitantes", afirmou Joaquim.
Ele acrescenta que esse número pode aumentar para 1.800 toneladas/dia em 2008, devido ao crescimento e aproximação de cidades vizinhas. Veja no quadro abaixo as alternativas encontradas por uma cidade que investiu em tecnologia para solucionar os problemas gerados por um problema tão comum a nós brasileiros: a destinação final dos resíduos sólidos urbanos.
Na abertura do encontro em Stuttgart, o presidente da Reciclázaro, Pe. José Carlos Spínola, foi indagado sobre o contexto político que vive o Brasil atualmente. Spínola fez então um panorama da situação, desde a mudança de gestão no plano federal em 2002. O presidente da Reciclázaro falou de avanços sociais que, entretanto, não minimizam a decepção trazida pela corrupção a movimentos e lideranças que "faziam da ética uma bandeira à vivência política", disse Spínola.
"O Brasil gera riquezas, mas também muita pobreza. É um país marcado por grandes desigualdades. Por isso, é muito importante que os países ricos como a Alemanha tenham um olhar sensível para estas questões", disse ele.
A pobreza, como um problema global, que portanto não atinge só o Brasil, foi discutida no Fórum Social Mundial, em praticamente todas as cidades onde ocorreram eventos. O presidente da Reciclázaro agradeceu a oportunidade de estabelecer um diálogo que fortalece as organizações, "na certeza de que um outro mundo é possível".
A fala do Pe. José Carlos repercutiu em alguns jornais alemães, como Stuttgarter Zeitung e em um canal de televisão local, que cobriu amplamente o Dia de Ação Global do FSM.
Marcos Moreira Vaz
Assoc. Reciclázaro - Coord. Núcleo de Meio Ambiente e Comunicação
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